O jogo que nunca aconteceu, enfim, vai rolar. O primeiro encontro entre Chapecoense e Atlético Nacional será hoje, às 19h15, na Arena Condá, pela Recopa Sul-Americana.

O cenário é diferente de novembro de 2016, quando a Chapecoense seguia para Medellín, onde faria o jogo de ida da final da Copa Sul-Americana. O sonho, lá atrás, ficou pelo caminho. O avião da LaMia, que levava a Chape, caiu e interrompeu a vida de 71 pessoas, dentre elas, o técnico Caio Júnior e 19 jogadores. Praticamente o time inteiro.

O nó na garganta, que calou brasileiros e mostrou a impressionante solidariedade do povo colombiano, agora dá lugar ao sentimento de gratidão. O silêncio sepulcral foi trocado por aplausos, gritos, bandeiras. As lágrimas secaram e foram trocadas por sorrisos, que ficaram cada vez mais largos quando os jogadores do Atlético desceram do avião. Eles foram recepcionados pelo jornalista Rafael Henzel, um dos sobreviventes, que presenteou todos com medalhas comemorativas, com os dizeres “campeão do mundo em respeito e solidariedade”.

O jogo de volta, que seria no dia 6 de dezembro, por motivos óbvios, também nunca aconteceu. Em ato de grandeza, o time colombiano abriu mão do título e cedeu a taça para a Chape. Além disso, estádios colombianos entoaram o grito de ‘Vamo, vamo Chapê’, que estava difícil de ser cantado por quem ainda vivia o luto. Foi lindo de ver.

 Recepção calorosa

Já em solo brasileiro, atletas do adversário – dá para chamar assim? – seguiram para um hotel, acompanhado por uma pequena carreata de torcedores. No caminho, a população saudou cada jogador.

A emoção estava presente em cada esquina. Todos sentiam que estava ali, uma ligação que se fez eterna. Em nota, o clube colombiano apenas agradeceu tanto amor. Não há outra palavra que defina a relação entre Chape e Atlético. “As demonstrações ultrapassam o imaginado. O povo de Chapecó foi às ruas para festejar o Atlético Nacional. Se entregaram por uma causa e conquistaram nossos corações. Nossa gratidão eterna. Tivemos que fazer quatro viagens de avião para ter essa recepção. Com gosto nós faríamos a mesma viagem à pé para repetir isso”, disseram eles.

Se eles estavam emocionados, mal imaginam o que nós, brasileiros, sentimos ontem, ao ver um milagre chamado Alan Ruschel de chuteira, correndo no gramado verdinho de Chapecó. Um dos três atletas que sobreviveu, ele fez seu primeiro treino com o grupo. E o melhor: não nos deixou sentir tristeza ou aperto no peito. Afinal, ele estava ali, feliz, vivo, como uma prova de que dá, sim, para recomeçar, mesmo quando só restam destroços.

Neto, último resgatado, quando já não havia mais esperança de achar vida no meio da escuridão e do frio, também está bem e já voltou a treinar. Apesar da recuperação surpreendente, os dois ainda não podem jogar.

O ex-goleiro Follmann, que poderia sofrer por ter perdido uma perna e ter tido a carreira interrompida, sorriu. Ontem, com uma prótese no lugar da perna, ele calçou um tênis pela primeira vez e foi grato por isso. A alegria foi tanta, que ele compartilhou a conquista nas redes sociais.

Eles são provas de que chegou a hora de ver a bola rolar. Afinal, a vida não pode parar.

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